Quinta, 30 Março 2017 16:05

PÁSCOA: COM AFETO E MENOS AÇÚCAR Destaque

Escrito por
Avalie este item
(3 votos)

Que surpresas nos reservam os ovos de páscoa, hoje?

Minha associação remete a lembrar na cesta de páscoa, e na expectativa da chegada do coelhinho da páscoa ou nos disputados ovos ou chocolates, embaixo da cama, escondidos em algum canto da casa, suspensos no imaginário ou em algum lugar da infância, com cheiro de chocolate e “sabor” de missa dominical.

Símbolos e mitos nos ajudam a pensar e dar significados sobre a cultura, sobre a nossa existência, sobre a vida e a morte. Ao pensar na Páscoa, pensamos nos tradicionais ovos de chocolate, que representam a origem, o nascimento, uma nova vida.

A Semana Santa, a Paixão de Cristo como um valor religioso e simbólico da cultura cristã também apontam para algumas passagens: da morte à vida; da tristeza à alegria... A palavra paixão do Grego “Pathos” significa padecimento, sofrimento, revelando também a passagem da morte para a vida. Com a morte, abrem-se reflexões sobre as perdas, sobre a vida e a possibilidade de sonhar e renovar, pois na alegria da Páscoa, pensamos na esperança de cada renascimento.

A palavra Páscoa, quando derivada do hebreu "Peseach", significa a passagem da escravidão para a liberdade, representando também a passagem da morte para a vida. Pensando na morte e nas angústias estamos pensando na vida. É porque morremos, que a vida, a afetividade e a busca do outro têm valor. É com o significado de morte da Sexta-feira Santa que o domingo de Páscoa torna-se vida e faz sentido.

Mas, qual o recheio desses símbolos, hoje? Por que, hoje, tais símbolos e valores se desvanecem cada vez mais? O sentimento coletivo, as relações afetivas mais estáveis, a noção de limites e valores simbólicos da cultura declinam sobre a primazia do ato e dos objetos. As relações afetivas sustentadas enquanto “açucaradas”, revelam-se intoleráveis ao amargo ou meio-amargo, arrasadas pelo consumo, pelo exagero.

Os ovos e coelhos de chocolate e açúcar tem forças para sustentar estes símbolos e significados de vida ou também foram arrastados pelo consumo, pelo devastador tempo, inimigo da estabilidade, do amor, da manutenção da vida!? Adicionou-se cada vez mais açúcar e menos significado!

O chocolate com sua essência e origem amarga, nos dias de hoje, traz outros ingredientes, que não estão escondidos, não são mais surpresa, estão escancarados e chegam a transbordar nas fartas prateleiras de consumo. Muito além da tradição, como num Kinder Ovo, deve ser um momento do dia a dia para surpreender, trazer alegria, satisfação, êxtase, seja pelo doce, seja pelo brinquedinho de recheio, com os Minions, Star Wars, carrinhos diversos, Hot Wheels...

Salvador Dali, dentre outros símbolos, utiliza a imagem do ovo, que simboliza o nascimento, o medo e, ao mesmo tempo, a esperança e o recomeço. Observa-se e contempla-se a criança diante do nascimento de algo novo e inesperado, representado por um novo homem. A mãe, nesta imagem, aponta para uma nova era, onde tudo está a recomeçar, revelando que nem todo ovo é de chocolate e açúcar, sinalizado pelo medo e a expectativa da criança, amparada na mãe, diante do desconhecido. Assim é a realidade da vida!

A Páscoa aponta para um novo homem, capaz de refletir sobre a finitude, sobre a angústia e fragilidades da vida, simbolizadas na Sexta-feira Santa e reveladas não como término, mas como abertura de caminhos, com a esperança vencendo o medo, buscando-se o doce que vem também do amargo. Pensando na morte, nas perdas e fragilidades, estamos também pensando e nos preparando para a vida, com afeto e menos açúcar.

José Renato Berwanger Carlan - Psicólogo-CRP-07/08973 - Psicanalista CPRS

Última modificação em Quinta, 30 Março 2017 16:25

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

4kids 44