Segunda, 26 Dezembro 2016 23:42

NATAL E VIRADA DO ANO: MELANCOLIA E PROMESSAS DE FELICIDADE Destaque

Escrito por
Avalie este item
(3 votos)

Natal e Novo Ano nos remetem a mitos, rituais e valores simbólicos que marcam nossa existência: nascimento, vida, renovação, mudanças, criar projetos ou resgatar projetos antigos... Momento também de encontro com as contradições e paradoxos da vida: Ilusões e desilusões; alegrias e tristezas; vida e morte; passado e futuro; esperança e medo; melancolia e euforia.

Mitos e símbolos reforçam a solidariedade na família e na sociedade como um todo, amparando, sustentando os seus membros de forma coletiva, envolvendo suas exigências e fragilidades existenciais em uma totalidade psíquica, como um colchão de amortecimento social. Os símbolos de Natal e Ano Novo resgatam aspectos valiosos da existência individual ou cultural, além de fortalecer a rede de vínculos como forma de superar medos e angústias frente a parte mais áspera da existência. São referenciais que surgem também como forma de conter os sentimentos de ódio e destrutividade que habitam a parte mais primitiva do homem, quando se espera que os laços de afetividade e amor prevaleçam sobre o ódio e as frustrações cotidianas. Mas, nos dias atuais, onde se ancorar quando as redes afetivas estão fragilizadas, quando estamos frente a um grave declínio de referências?

Vive-se uma crise de ordem mítica e simbólica, momento em que se deixa aprisionar a várias ilusões, algumas nascidas de nós mesmos e outras impostas pelo imperativo midiático, de consumo com a prevalência da informação sobre a formação, da estética sobre a ética, onde as maiores promessas são mais faladas do que vividas, mais virtuais do que reais. Não se trata de uma negação da felicidade, nem mesmo uma negação das ilusões. A questão é que a promessa de gozo e felicidade se tornou uma obsessão contemporânea, não deixando brechas para o sentir, para as angústias, fragilidades e contradições próprias da existência, uma negação do real e da realidade. As promessas tecnológicas e virtuais estão conseguindo preencher o vazio existencial, momento em que problemas esbarram na clínica (depressão, melancolia, hiperatividade, pânico...) e nas problemáticas sociais visíveis a olho nu, sentidas na pele, como violência, adicções, sexualidade precoce, banalização de valores, símbolos e mitos, declínio da lei e dos limites, crise de autoridade, corrupção...? E as nossas crianças!?

Recentemente assisti à peça de teatro “Para Sempre Terra do Nunca”, com texto e direção de Ronald Radde, uma história que diverte adultos e crianças, ao mesmo tempo que remete a uma análise crítica à supervalorização das tecnologias e do virtual, hoje, em detrimento do imaginário e do simbólico. A estória mistura vários personagens clássicos como Peter Pan, Chapeuzinho Vermelho e Capitão Gancho. O espetáculo busca resgatar o sonho e o encantamento um tanto perdidos pelo uso da tecnologia. Com a magia das estórias infantis e seus personagens é que a Terra do Nunca retornará ao coração dos pequenos que voltarão, assim, a serem as crianças que todos nós, também, fomos um dia, conforme sinopse: “A Terra do Nunca, um lugar de sonhos e aventuras do imaginário infantil, se vê repentinamente abandonada. As crianças do mundo estão com outros interesses e os personagens dos clássicos infantis esquecidos. Algo precisa acontecer para que aquele universo tão rico volte a ser o refúgio de encantamento que até os adultos, mesmo que em sonho, sempre retornam. Pensando nisso, o Capitão Gancho decide atirar uma garrafa ao mar com uma mensagem dirigida a todas as crianças. O que o Capitão Gancho não esperava é que muita coisa aconteceria na Terra do Nunca a partir de então”.

A Terra do Nunca remete à imaginação e à fantasia, oferece elementos para o pensar assim como nos aproxima de experiências da vida, como alegria, tristeza, angústia, expectativas e esperança, fazendo um contraponto ao crescimento precoce das crianças nos dias atuais, as ideias prontas, pré-concebidas que mais as angustia e as dificulta de serem crianças, de brincar, sonhar, imaginar. Refletido na pintura de Albrecht Dürer, a realidade atual revela um pouco do caos que envolve a melancolia ao mesmo tempo que colhe os frutos de seus esforços incansáveis, alcançando o ápice da vida a partir da própria angústia. Melancolia ainda procura, em partes, pelo todo, pela busca de sentido, revelando uma base caótica mas ao mesmo tempo realista e segura para organizar uma nova estrutura para a vida e para o mundo, com a metáfora de utensílios de arquitetura e carpintaria. A obra simboliza e suscita uma indagação sobre o momento atual, individual e social, onde muitas coisas precisam ser desfeitas para serem refeitas, reconstruídas a partir também da angústia e da falta como parte da vida, ponto de partida em busca do outro para que a esperança possa vencer o medo, desilusões e asperezas da existência. Quando o investimento nestas datas e as ilusões são muito grandes e desproporcionais em relação à realidade, ao mesmo tempo em que há uma crise nas relações e vínculos afetivos a frustração e a depressão pode tomar conta, uma vez que se distanciam muito a fantasia da realidade, com expectativas não cumpridas, gerando uma lacuna muito grande.

Particularmente, nas festas de final e início de um Novo Ano, tais ilusões chegam ao investimento e ápice extremo, como se houvesse uma ruptura e um descontinuismo na vida e nos acontecimentos, uma travessia para um lugar felicidade, onde todas as fantasias e ilusões serão realizadas magicamente. Mas, ao chegar do outro lado, o sujeito se depara com a realidade da existência, restando-lhe juntar os resquícios do ano, depositados num único e derradeiro dia, eis a melancolia.

Texto escrito pelo psicanalista José Renato Carlan

Gravura que ilustra o texto Albrecht Dürer

Última modificação em Terça, 27 Dezembro 2016 00:11
Mais nesta categoria: « OBJETO TRANSICIONAL

2 comentários

  • Link do comentário Quarta, 11 Janeiro 2017 17:05 postado por Marcio Adriano Camargo

    Parabéns pelas reflexões. Final de ano sempre traz consigo angústias, se depositramos expectativas exageradas. .. penso... Mas qual de nós não tenciona melhorar, ir adiante , ser mais feliz? Portanto parece que não estmos vacinados disto... Ainda bem que existe este pessoal da psicologia para conduzir boas análises! Grande abraço.

  • Link do comentário Domingo, 08 Janeiro 2017 13:59 postado por Juliana Fuly

    Muito lindo o site, parabéns.

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

4kids 44